Frida com as minas no MINAS em Minas

Olha, no quesito blogueirinha eu tô falhando bonito, hein! Quanto tempo não venho por aqui! Estava até com saudades… Estou aparecendo assim do nada, de repente e sem avisar, porque teve mais uma etapa do meu projeto Frida que Segue! Dessa vez, fui pras bandas de Minas, encontrar com umas minas incríveis que produzem o Encontro MINAS (Mulheres Inusitadas de Narizes).

O encontro está na sua terceira edição e enquanto eu escrevo ele ainda está acontecendo lá em Uberlândia. Realizado por uma equipe inteiramente feminina de mulheres lindas e poderosas, com muito, muito amor envolvido!

Esse festival me apareceu de última hora. O projeto original previa outro, que infelizmente não foi realizado neste ano. Então lá fui eu pra Minas. E num período de muito trabalho por aqui, decidi ir num bate e volta. Decisão que me arrependo agora, queria muito ter continuado a vivenciar o clima do encontro, as oficinas, os espetáculos, as trocas… Mas a logística foi complicada e com isso voltei antes do que gostaria.

Fui de carro de Londrina até Uberlândia, o que por si só já foi um desafio e tanto. Já falei aqui das minhas (não) habilidades ao volante, certo? Não sou daquelas que se diga nossa, como ela dirige! Mas lá fui eu, 800km até Uberlândia e depois mais 800km de volta pra casa. E olha, tenho que dizer que fiquei orgulhosa de mim. Claro que cansei até o último pedacinho do meu corpo. Mas me saí bem e acho até que gosto de dirigir na estrada. Ah, mostrei documentos pro guarda na entrada de Minas e soprei até bafômetro, pensa… fiquem tranquilas, eu só tinha comido uma banana.

Mesmo na correria conheci e pude conversar com palhaças maravilhosas, de Minas, de Santa Catarina, de São Paulo, de Curitiba, enfim… É sempre um privilégio poder apresentar meu trabalho para outras palhaças, e dividir com elas um pouquinho da minha história. Mas também é sempre um frio na barriga louco. E nesse caso, meu espetáculo foi a abertura do Encontro, pensa numa responsabilidade.

Eu estava nervosa desde a hora que saí de Londrina. Passei o caminho inteiro tentando lembrar algo que eu pudesse ter esquecido de levar. A cada parada, minha vontade era abrir o porta malas e desempacotar tudo só pra conferir, de novo, se estava tudo ali. Matheus (o técnico que viajou comigo) me impediu dessa loucura todas as vezes. Mas eu continuava pensando nisso.

Aí rolou bafômetro, problema no ralo do banheiro (tive que trocar de quarto no hotel, tinha m* saindo pelo ralo do chuveiro), manifestação política contrária as minhas crenças passando pelo meu caminho, maluco tentando entrar no meu carro… e minha mente fértil já começou a achar que era um sinal. Que ia dar m*. Tinha alguma coisa errada. E o nervoso aumentando.

Tentei respirar com mais calma. Um leve atraso para começar me deu tempo de colocar minha cabeça de volta no eixo. Nada de procurar sinais. Respirar, entrar em cena e fazer o que eu sei, o que eu planejei. E foi o que eu fiz. Na plateia, mais adultos que crianças. Gente linda e generosa, casa super cheia! Foi uma das minhas melhores apresentações. Fiquei muito feliz com o resultado. E teve fila pra comer risoto e muitos abraços deliciosos que me alimentaram o coração! Destaque para minha souz-chef Leka, que (eu não sabia) mas era também palhaça e fez um jogo muito legal comigo. E para o abraço quentinho que recebi das Las Cabaças que tanto admiro!

Antes de voltar pra casa ainda deu tempo de jantar com as palhaças todas. Ouvir coisas lindas sobre o que elas acharam do meu espetáculo. Ouvir dicas preciosas para seguir na estrada. E conversar sobre essa história de ser mulher e ser palhaça e esses caminhos que estamos trilhando na palhaçaria.

Minas (todas), amei estar com vocês! Vida longa a esse encontro e que nossos caminhos se cruzem mais vezes nessa estrada! Por enquanto estou sem destino certo, mas trabalhando bastante para que esse seja apenas o começo da história deste espetáculo, quero leva-lo para quantos lugares forem possíveis! Em setembro Ao Ponto completa um ano! E tem sido uma comemoração constante!

Frida que segue!

No meio do mundo! Macapá – Amapá

Quando comecei a pesquisar os festivais para esse projeto e me deparei com esse no Amapá, que até então, eu não sabia nem bem onde era, e estava tão afoita (em busca de festivais parceiros em pouquíssimo tempo que tinha para fechar o projeto antes do fechamento do edital) que nem pensei muito, nem olhei no mapa.

Com a aprovação do projeto, depois com a confirmação que Macapá estaria mesmo no roteiro e, principalmente, com a aproximação da viagem é que comecei a retomar toda a geografia brasileira na minha cabeça e a perceber que seria longe mesmo. Tive que olhar o mapa e me espantei vendo que era longe mesmo mesmo. Quase na guirlanda francesa, na groenlandia francesa, digo na Guiana Francesa.

A vinda em si, foi muito tranquila. O voo de São Paulo até aqui tem aproximadamente 5 horas de duração, com uma paradinha em Belém. O trajeto entre Belém e Macapá dura 40 minutinhos de avião, de barco são 24 horas pelo rio Amazonas, e só tem esses dois acessos para chegar até aqui.

Fui recebida pela Antoniele, coordenadora do Encontro e da Cia. Trecos InMundos, que organiza o tudo e pela mãe dela, Rute, também palhaça, atriz, contadora de histórias, professora, guia de turismo, fotógrafa, motorista etc, etc. Logo na chegada elas já me fizeram entender que aqui não era o fim do mundo, não. Era o meio do mundo!

Eu não tinha muita expectativa do que ia encontrar aqui, mas também não era dessas pessoas que achava que ia aterrissar no meio da selva amazônica. Pensava, é uma capital, oras! De fato, Macapá é a capital desse estado que tem apenas 18 municípios, é uma cidade espalhada, não muito verticalizada. E tem o Rio Amazonas aqui dentro. Me falaram que é a única capital em que o rio forma uma praia e a maré sobe e baixa como no mar. Com direito a orla, avenida beira rio e tudo. O rio e o clima dos trópicos fazem todos os dias por aqui serem quentes! Muito quentes… E úmidos como há muito eu não sentia. Os óculos embaçam, o celular fica com a tela úmida como se estivesse dentro do banheiro esfumaçado de vapor.

No primeiro dia a família Xavier, que me recebeu aqui com o maior carinho do mundo, (e por isso eu não esperava e sou muito grata) me levou para um arraial! Com fogueira e muitas delícias juninas típicas do norte. Provei o vatapá do norte, mas me aconselharam a não começar pela maniçoba, pelo que eu entendi é tipo uma feijoada, mas leva uma folha (acho que de macaxeira) no preparo. E temperos fortes. Resolvi não arriscar!

Mas não tive escolha quanto a quadrilha! E lá fui eu dançar uma quadrilha improvisada e muito animada! E, olha, não sei se é porque vim lá do Sul ou se porque não sou tão experiente em quadrilha, mas tem passos como MARESIA, SERROTE e COSTURA  que são incríveis, difíceis e eu nunca tinha visto (e muito menos dançado). Foi uma delícia, com muito suor envolvido!

Os Xavier (reres) fizeram questão de me levar para conhecer os principais locais turísticos daqui. E logo no primeiro dia, antes mesmo de começar o trabalho, já fui tomar banho de rio num balneário aqui que fica numa área de quilombos. Deu pra ficar de molho um tempinho em Curiaú antes de começar a semana pra valer.

De turismo ainda teve Fortaleza de São José de Macapá e o Marco Zero, onde passa a linha do equador e é possível estar com um pé em cada hemisfério ao mesmo tempo. Logo atrás tem um estádio de futebol que a linha do meio de campo segue a linha do equador, fazendo com que cada time jogue num hemisfério!

Provei peixe, farinha e açaí! E esse último, puro, in natura e depois com farinha e açúcar. Diferente do que a gente come no sul, mas muito gostoso. E aqui eles comem isso a qualquer hora, inclusive junto com as refeições salgadas.

A oficina aconteceu em três dias, só para mulheres! E foi um momento bastante especial! Estar entre mulheres tem sido bom! A gente consegue jogar, rir (ou chorar) e trocar de um jeito mais próximo, entendendo uma a outra. Não sei explicar! Sei que foi reenergizante estar entre mulheres tão lindas, tão fortes e tão particulares nas suas vivências. Ao mesmo tempo em que me sinto sugada ao deixar muito da minha energia com elas, saio renovada dos nossos afetos.

Acho que consegui ajustar uma linha de workshop para seguir. Chamei de Palhaçaria e Afeto. E venho dizendo que se não for para afetar, nem vou. Entendendo a palhaçaria por esse viés de encontro com o outro e de como afetar e se deixar afetar pelo outro e ser modificado por esse encontro. E buscando a verdade, a conexão e a exposição tão próprias da palhaça de um jeito sutil, carinhoso, cuidadoso! Sinto que é uma pesquisa que tem um longo trecho a ser percorrido. Mas sinto também que encontrei um caminho.

E ainda teve o espetáculo! Montei tudo com a ajuda do pessoal daqui. Estava sozinha, sem técnico! Mas o Sandro, da Cia Trecos InMundos me ajudou nisso. Ensaiamos ao longo do dia para acertar tudo para a apresentação que seria às 19h. E foi uma delícia! Tenho me sentido bastante à vontade em cena e isso é ótimo! A estrutura já está melhor definida na minha cabeça e, com isso, consigo brincar mais com a plateia, ouvi-la melhor e saber o que aproveitar das coisas que vão surgindo. E sempre surgem muitas coisas legais! Dessa vez teve um bicho querendo entrar em cena, tipo um inseto gigante, eca. Sobrevivi! E uma repórter que insistia em entrevistar as pessoas e fazer sua reportagem quase de dentro da cena. Brinquei com isso também. Estava bem cheio e todo mundo rio muito, foi ótimo!

Volto pra casa feliz da vida com esses dias vividos aqui! E agradecendo bastante por essa oportunidade. E logo tem mais! Mais destinos, mais apresentações, porque afinal de contas…

Frida que segue…

Quem é vivo sempre (ou quase sempre) aparece

Olha só quem voltou! Estava sumidaça desse blog e aí bateu aquela vontade de dar uma movimentada por aqui de novo! Fato é que eu estava mais nas funções de bastidores nos últimos dias. Ensaio, produção, contatos, relatórios. Enfim essas coisas que ninguém imagina, mas artista faz…

E neste último final de semana teve Ao Ponto! Eba! Já estava com saudades. A apresentação estava marcada há algum tempo, e foi no SESC Cadeião, num projeto de Domingos Culturais. Eu quis muito estar na programação do SESC da minha cidade! Então foi tudo bem especial e significativo.

E estava lotado! Incrivelmente lotado. Durante a semana eu pensei “seria lindo se lotasse no Sesc”. Mas não confiei muito que isso pudesse acontecer. Mas aconteceu. E foi incrível! Tinha muita gente mesmo. Muitas crianças, dessas que não param de falar por um segundo sequer e desafiam a palhaça a cada nova ação e situação! Um sufoco para quem é a palhaça em questão. E um deleite para quem está na plateia.

Delícia voltar pra casa e fazer uma apresentação assim, com casa cheia! Com vibração de um monte de gente especial! Dessa vez tive na plateia a presença da chef de cozinha que me ensinou a fazer risoto de verdade e que chacoalhou a minha dramaturgia tão apegada ao cozimento desta receita! Obrigada, Valéria (Mortara do Colher. Pesquisem no insta, ela é maravilhosa e dá cursos incríveis!)

E também da minha amiga Carol, a palhaça Jujuba que viu essa ideia nascer (há uns bons anos), me presenteou com muitos itens de cozinha lá no comecinho desse processo! Lembro dela dizer “faça-os brilhar”. Espero estar fazendo! Os saleiros foram um presente dela! Obrigada, Jujuba! Muito feliz que você (finalmente) viu!

E agora eu já me preparo para a próxima aventura! Ia fazer suspense quanto ao próximo destino. Mas acho que vou revelar de cara. É tipo tão longe quanto Portugal, só que no Brasil mesmo, hehe! Encontro de Mulheres Palhaças do Amapá aí vou eu! Vai ser no comecinho de julho! Claro que volto aqui e no insta @palhacafrida pra contar todos os detalhes para vocês!

Por enquanto,

Frida que segue

Portugal Parte 8 – Lisboa

Ah que tudo estar nessa cidade e ainda ter a chance de apresentar meu espetáculo ali! Que emoção! Óbvio que comecei a ficar tensa logo que cheguei, normal. Chegamos no final da tarde de quinta-feira, nos instalamos e já demos uma passeada na noite de Lisboa! Quanta gente, misericordja!

Na sexta de manhã levamos os materiais do cenário para a Casa do Coreto, onde seria a apresentação no dia seguinte. Eu estava ansiosa por conhecer o espaço e me ambientar por ali. Maaaaaas, Marina não estava nem um pouco afim. Ela não queria sair de casa. Natural, fim de viagem, estávamos tendo dias corridos. O dia anterior tinha sido uma pauleira. Ela só queria sossego. Eu respeitei vários momentos dela em que precisou descansar. Fiquei vendo desenho na TV enquanto queria estar passeando. Mas, dessa vez não dava para respeitar.

Eu tinha que levar as coisas, tinha que ver o espaço. Então, ela teve que ir. Mas, ela é uma criança e a compreensão é outra. Então, foi chorando desde a hora que saímos de “casa”, por todo o caminho no Uber (o motorista ficou até preocupado), e só parou quando achou livros na Casa do Coreto e se distraiu. Se você é mãe sabe o quanto um choro interminável de um filho em público pode ser assustadoramente irritante. Mas, num exercício lindo, me segurei. Segurei o Lucio e deixei ela chorar todas as pitangas que precisava até se sentir melhor. (não amiguinhos, não sou sempre esse exemplar de buda na Terra, tá! Mas, dessa vez, resolvi não entrar na dela e foi o melhor que fiz).

Nesse dia deixamos a luz pré-montada. Conversamos com a Maria João e com a Ana, responsáveis pelo espaço. Me senti muito acolhida! É um espaço lindo, pequeno, intimista! Com essa carinha de alternativo. E almofadas vermelhas para as crianças sentarem na plateia (me lembrou muito o Triolé, espaço que mora no meu coração onde o Ao Ponto nasceu).

Seguimos para mais um dia de passeio e turismo, dessa vez em Lisboa, dessa vez com a melhor guia de turismo que poderia encontrar, minha prima Érica, que mora nessas bandas e me ajudou em cada segundo dessa aventura, mesmo quando nada ainda era tão certo! Amo você <3!

Anda, anda, sobe ladeira, metro, comboio, pastel de Belém e por aí vai! Mas, no dia seguinte, o sábado da apresentação, eu já estava uma pilha de novo. Ai como eu fico nervosa, que que é isso… Respirando fundo o dia inteiro e tomando floral (Vivah, maravilhosa, obrigada!).

Aí, nem sempre a coisa é tão fácil como parece. Tem que ter uma coisinha pra dar emoção, né? E teve. Uma emocionante final de campeonato português de futebol que demorei a entender o funcionamento apesar de ter uma dinâmica parecida com o campeonato brasileiro (que eu também não entendo).

Não precisei entender muito para perceber que a galera estava animada. A torcida era grande e a chance do Benfica (maior time de lá, acho) ganhar era grande, e eles ainda jogariam em casa. E adivinha onde é o estádio do Benfica? Sim, bem bem bem próximo da Casa do Coreto, onde seria minha apresentação.

Ah que bacana, mais essa pra fechar a carga emocional intensa que foi essa viagem! Maria João estava preocupada com o público. Muitas pessoas que iam, estavam desistindo em função do jogo. E não necessariamente para assistir ao jogo. O problema é que como sempre existe o risco de haverem confusões próximas ao estádio, a polícia já estava se preparando, algumas estações do metro estariam fechadas. Enfim, a mobilidade por ali ficaria difícil, seja de carro ou de transporte público.

Fiquei com muito medo de não aparecer ninguém ou de aparecerem tão poucas pessoas que fosse difícil fazer. Mas continuei nos preparativos! Marina estava muito colaborativa! Na verdade, tirando o episódio do dia anterior, ela foi ótima! Entendeu e respeitou meu trabalho o tempo todo. Muito lindo de ver! Muito especial que ela tenha estado ali vivendo tudo isso comigo. Nos minutos que antecederam a apresentação, ela se preparou comigo, alongando e aquecendo o corpinho! Foi demais!

E, tinha público! Podia não ser a quantidade esperada ou a quantidade que a Casa está acostumada! Mas tinha! Um público contido, reservado, tímido, lisboeta! Uma portuguesinha linda quis entrar em cena, contornei a situação e ela ficou vidrada durante o espetáculo todo.

A Érica, minha prima, assistiu! Ah como é bom ter família na plateia (por isso eu levei Marina). Percebi ela segurando o riso muitas vezes. Como o ambiente estava bem silente, nenhuma grande risada se destacava. Me preocupei a princípio. Mas depois segui o jogo! Senti, que de um modo ou de outro, eles estavam comigo. Mesmo que contidos!

E estavam mesmo! No final, todas as pessoas que estavam na plateia, eu disse TODAS AS PESSOAS QUE ESTAVAM NA PLATEIA, vieram falar comigo, me parabenizar e me dizer o quanto gostaram do trabalho. Ah, que especial que foi. A mãe da portuguesinha que entrou em cena me disse inclusive para não reparar no jeito deles. “Eu estive no Brasil esse ano, sei que vocês são mais abertos. Mas nosso jeito é diferente, gostamos muito do seu trabalho”. Ela ainda salientou que achou incrível que a filha tenha assistido com tanto interesse. “Se agrada às crianças é porque é bom!”. Ah, eu concordo com ela! Que difícil agradar esse público tão exigente que são as crianças. Que alegria ter conquistado isso com esse espetáculo!

E aí era chegada a hora mais difícil. A hora de empacotar tudo de vez, para voltar ao Brasil! Ai que nó na garganta. Foram dias tão intensos, tão especiais! Não parecia terem sido só quinze dias. Parece que vivemos pelo menos três meses lá. Voltei pra minha casa meio sem lembrar como ela estava. Estranhei até meu carro.

Mesmo depois de tudo embalado, ainda tínhamos tempo para passeio. Fechamos as malas e não pensamos duas vezes. Bóra curtir mais de Lisboa! O voo sairia só às 23h. Então, passeamos a tarde toda, para ir direto para o aeroporto depois. Para encarar atraso de uma hora na saída de Lisboa. E depois 12 horas de voo, sendo duas horas extras só rodando em cima de Campinas esperando o aeroporto abrir. E o aeroporto não abrir. E depois pousarmos em Guarulhos, enfrentando horas de fila no guichê da Azul, até eles nos levarem de van as pressas para não perder o voo em Campinas, para finalmente chegar na nossa casa em Londrina. Depois de pelo menos 30 horas na rua, entre passeio, esperas e aeroporto!

Dessa vez foi o Lucio a precisar de atendimento médico. Que saga! Mas estamos todos bem! Agora só sofro de saudade de Portugal e de tantos momentos especiais que vivi ali! Mas já estou aqui me preparando para o próximo destino (vou revelar em breve). Porque afinal de contas, Frida que segue!

Portugal Parte 7 – O Porto

Terminado o Festival, era hora de seguir para o Porto, para Porto (nunca sei se uso o artigo aqui ou não). Ainda aproveitamos para passear um pouquinho na região do Alentejo, mas na sequência pegamos a estrada.

Já estava tirando de letra essa história de dirigir aquele carrão (mentira, mas já estava menos difícil)! Fizemos de carro esse trecho até Porto, mas chegando na cidade devolvemos o carro. Porto tem um transporte público que funciona muito bem, as vagas de estacionamento eram caras e difíceis e por isso, optamos por ficar sem carro a partir dali.

A cidade é incrível! Fiquei muito muito muito apaixonada por Porto! Destaque para o rio Douro que corta a cidade é um lugar lindo de qualquer lado dele que você esteja! Fica dourado no por do sol, fazendo jus ao nome! Ficamos hospedados bem perto de uma estação do metrô, ou metro, como eles dizem. Então, facilmente conseguíamos ir para todos os cantos! E cada canto lindo tem o Porto!

Foi um tempo de descanso em relação a primeira semana no Festival que tinha sido intensa. E também de aproveitar o passeio e turistar mais.

Não apresentei o espetáculo, mas dei uma oficina para um grupo de lá. O Palhaços Visitadores, grupo da Eva, que me ajudou em cada passo dessa viagem, tanto no Festival quanto nos outros lugares (Obrigada, maravilhosa!). O grupo visita asilos e lares de idosos por lá. A ideia era que eu dividisse um pouco da minha experiência de palhaça visitadora (de hospitais) com eles!

E foi muito gostoso! Eu sempre fico nervosa em workshops. Gosto muito dessa função, mas sempre fico aflita. Não sei como as pessoas vão receber. E tenho um problema de tempo. As vezes programo muita coisa e não dá tempo e outras vezes sobra tempo. Então fico o tempo todo tentando equilibrar isso.

Cortei algumas coisas logo de cara porque começamos mais tarde que o combinado (problemas técnicos). Mas eu gostei muito de ver outro grupo em atividade. Eles são em um número de participantes que parece o Plantão Sorriso. E dá pra ver que tem uma ligação muito bacana. Foi muito legal ver o jogo deles! E o quanto eles estavam inteiros e disponíveis para as atividades propostas.

Enquanto estava lá, pensei nisso de ter um workshop. E acho que preciso de algo mais estruturado. Digo isso no sentido de ter um material fechado e fazer sempre mais ou menos a mesma coisa, ou seguir mais ou menos a mesma linha. Porque se eu for dar um workshop diferente a cada vez, vou confundir minha cabeça já confusa!

E sigo pensando nisso, elaborando todas as minhas vivências para encontrar um formato de workshop que fale a minha língua (mesmo quando os participantes forem estrangeiros). E, claro que esse workshop no Porto já está dentro disso, mas sinto que preciso aprofundar ainda mais. E encontrar um jeito de levar mais de mim e não mais do mesmo. Enfim, ainda trabalhando sobre isso.

No dia de ir embora do Porto eu fiquei até mal-humorada. Estava tudo tão bem. Uma cidade incrível, mil coisas que não tinha dado tempo de fazer. Um apêzinho muito simpático e bem localizado. Ah, eu facilmente moraria no Porto! Amei demais aquilo tudo, mas já falei isso, né!

Demoramos a definir como faríamos a ida do Porto para Lisboa. A ideia inicial era ir de trem. Mas achamos meio caro. Então resolvemos ir de ônibus mesmo. E ônibus é ônibus, né, tem sempre alguém que compra o doritos mais fedido e senta perto de você. Mas foi tranquilo. Paradinha em Fátima, só pra eu colocar no currículo que já estive em Fátima (mas não vimos absolutamente nada além da rodoviária).  

E aí era chegada a hora da nossa última parada nessa aventura! Lisboa! Eu já tinha ansiedade e preocupação com a apresentação! Mas essa já é outra parte dessa história (talvez a última parte).

(continua)

Portugal Parte 6 – Festival Internacional de Palhaças

Quando eu já achei que estava no Festival somente para passear, veio um pedido de última hora. Uma visita a um centro de pessoas com deficiências mentais. Cheguei para almoçar e a Eva me pediu para fazer essa ação. E disse que ela iria e que seria uma oportunidade de jogarmos juntas!

Eu tinha prometido passear com Marina e Lucio aquela tarde, mas como falar não a um pedido do Festival? Almocei rapidão, fui buscar minhas coisinhas para seguir para essa atividade. (Marina e Lucio foram compreensivos).

A gente se trocou na sede do Festival (um castelo <3) e, diferente de como tinha sido com Enne, não combinamos nada. Eu até tentei. Mas a Eva disse para deixar rolar! Ela tem um grupo que visita lares de idosos lá em Portugal. E segue essa linha de esperar mais da relação com o outro do que de levar ao pronto. A Sue, canadense iria com a gente para completar esse jogo!

Eu estava morrendo de medo (ah, que novidade). Fazer uma visita assim, para um público que não estou nem um pouco acostumada, sem o meu jaleco, sem minhas coisinhas (que, sem querer, esqueci no castelo). Mas me permiti! E segui a Eva, que tem um jogo muito diferente do meu, com quem eu pude aprender muito!

Foi muito legal! Visitamos salinhas pequenas em que as pessoas estavam fazendo atividades manuais. Com cada um o jogo rolou diferente. Destaque para uma menina, bem novinha que se aproximou bastante de mim. Ficamos bem amigas! Uma fofa! E outra mulher, já mais velha que falava muito comigo, mas eu não entendia nada que ela falava. Até que comecei a falar também e dialogamos uma conversinha boa. E quando comecei a entender, foi melhor ainda! Ela falava coisas bem profundas.

No dia seguinte, ainda dei o workshop Comunicação e Auto Cuidado Através da Palhaça. Esse já estava programado desde o início, mas quase foi cancelado por ter poucos participantes. Era um curso para não-palhaças, aberto a comunidade, mas teve pouca adesão.

Eu topei fazer com um número de pessoas muito menor do que o mínimo que eu tinha estabelecido. Para não deixar de fazer e para respeitar os que já estavam inscritos. O fato de ter menos gente impactou um pouco nos exercícios, que são pensados no coletivo. Maaaaaas, nada impactou tanto quanto o fato de sermos em seis pessoas, e cinco nacionalidades. Entre os participantes, uma canadense, um espanhol, duas portuguesas e uma italiana. Que confusão!

Achei bem difícil lidar com isso, mas a experiência foi boa! Não sei se todos conseguiram se entender ou me entender (eu mesma não entendi algumas coisas), mas senti que algumas pessoas foram tocadas! E isso foi importante!

Durante o Festival pude encontrar, conhecer e conversar com várias palhaças. Algumas bem experientes, outras começando. Mas foi tão maravilhoso perceber o quanto somos parecidas e completamente diferentes ao mesmo tempo. Cada uma com seu espetáculo (infelizmente não vi todos), cada uma com seu universo na palhaçaria. Num mundinho próprio e tão particular! E todas na mesma ansiedade pelo Bolina. Sem dormir nas semanas que antecederam o Festival! Com frio na barriga! Tomando floral e tentando segurar a onda de estar num Festival Internacional de Palhaças. Todas querendo muito uma risada, um aplauso. Todas buscando afetar e serem amadas por essa menor e mais linda máscara do mundo que é o nariz vermelho.  

Fiquei pensando sobre isso de um festival só de palhaças. Por um lado, pensava que era a hora de unir, de buscar equidade, de não fazer um festival exclusivamente feminino. Por outro, entendo perfeitamente a necessidade de um festival só de palhaças, para fazer história, para marcar a presença feminina na palhaçaria. Agora, tendo acabado de chegar de um Festival só de palhaças tão singular, fico pensando como seria se fosse um festival misto. Penso que esse negócio de sororidade é uma coisa do feminino mesmo! E foi lindo vivenciar isso.

Ainda não sei bem o que pensar sobre isso. Só sei que foi uma sensação muito boa estar ali e sentir tudo isso. Uma mulher cuidando da outra. A palhaça que é mãe e estava preocupada com o filho doente em casa, aquela que precisa de mais horas de descanso por uma fragilidade. Aquela que precisa de uma acessibilidade especial por ser idosa e tantas outras. E todas juntas, na mesma vibração gostosa que o nariz vermelho nos traz!

(continua – sei que está ficando um longo relato, mas ainda tenho muita coisa para contar!)

Portugal Parte 5 – Hospital é hospital aqui e em Portugal

Sim, o Festival estava só começando pra mim! Aos poucos fui entendendo a dinâmica, me aproximando das palhaças. Sempre, ao final do último espetáculo do dia, havia uma reunião, para contar as experiencias do dia e combinar as ações do dia seguinte. Foi numa dessas reuniões que a Maria (coordenadora do Festival) abriu vagas para uma visita ao Hospital de Portalegre. Nenhuma palhaça “se inscreveu”. Ela passou a outros tópicos, mas foi logo avisando que o hospital não poderia ficar sem visita, portanto, ela mesma iria, com mais alguém, claro!

Aí fui sentindo que era assim que a coisa funcionava. Que todas estavam ali para fazer um pouquinho e que eu poderia me oferecer para ir ao hospital! Então, me ofereci! Ela recebeu minha oferta com um sorrisão. E no mesmo instante Enne Marx, (a Mary Enn do Doutores da Alegria de Recife) disse que iria comigo! Pronto! Estava formada a dupla! Ane e Enne!

Fingi normalidade ali no meio delas todas, mas estava explodindo por dentro. Eu sei quem é a Dra. Mary Enn já faz uns bons anos. Por acompanhar do trabalho dos Doutores da Alegria e, também, outros projetos que ela encabeça. Ela é uma referência! Resultado, frio na barriga imenso de pensar em atuar com ela no dia seguinte!

A primeira coisa que ela me perguntou foi se eu tocava algum instrumento! Tocar não, mas eu canto! Eu canto, gente! Hahaha! Quem me conhece de perto sabe que cantar é bem difícil para mim… Mas não pensei duas vezes! Sim, eu canto!

E lá fomos nós ao hospital! Um lugar realmente grande, imenso, enorme! Com um milhão de alas e todo tipo de patologias. Enne e eu temos experiência com crianças, mas, estávamos ali para o que desse e viesse! E era uma enfermeira que diria onde iríamos! A gente só não queria ir na psiquiatria, porque, né, talvez não nos deixassem sair. Brincadeiras à parte, eu nunca visitei uma ala de psiquiatria, Enne também não. A gente tinha um bocado de medo de como poderia ser e portanto, não queria ir lá.

Fomos muitíssimo bem recebidas logo na chegada! Com uma sala já esperando por nós para nosso famoso troca-troca. Enne e eu combinamos umas coisinhas, definimos outras. Apresentamos algumas musiquinhas uma pra outra. Ensaiamos algumas delas! E lá fomos!

Começamos pela pediatria. Lugar melhor não haveria. E logo de cara, um garotinho chamado Afonso, chorou de pânico!  Mas, insistentes que somos, não desistimos! Aos poucos fui sentindo uma brecha, fui entrando no quarto, brincando com o menino. Mary Enn veio junto e a relação se fez. Ao irmos embora, Afonso já estava de pé, correndo pelos corredores a nos seguir!

Mas, na pediatria foi só! Seguimos dali para a ortopedia. Muitos pacientes adultos. Na sua maioria idosos, com fraturas, fisioterapias, etc! Começamos bem, com uma senhorinha muito receptiva. E, fomos seguindo, com muitos sorrisos e um ou outro olhar invertido. Mas, aí aprendi uma lição muito boa com a Mary Enn. Ela insiste! Em muitos momentos nos quais eu teria desistido, ela encontra uma aberturazinha, se agarra a ela e vai! E no final, o que temos é uma relação linda estabelecida entre a palhaça e o paciente! Foi muito bonito participar disso!

Essa insistência boa foi fundamental no setor seguinte. Adivinha? Psiquiatria, claro! Tô de um jeito que não posso pensar em não querer algo que esse algo vai logo acontecendo. Portanto, lá fomos à psiquiatria. Eu já estava bem cansada, tinha sido tudo bem longo até aqui.

No momento que entramos, um homem nos viu e começou a chorar. Pensei, e agora? Ele chorava, alto, emocionado, sem parar. Afastaram-no um pouco, interagimos com outros pacientes. Velhos, novos, homens, mulheres! Cantamos muito, sem parar, em looping. Alguns se abriram logo, outros demoraram um pouco. Mas a relação se fez! Foi muito bonito.

E aí o chorão voltou. E começou a cantar também, adivinha o hit? Temporal de Amor, amiguinhos! Sim, Leandro e Leonardo. Claro que precisei pesquisar o nome da música, maaaas, na hora de cantar, sabia na ponta da língua! Então fizemos um trio, Mary Enn, o chorão e eu! “Quando você chegaaaaar, tira essa roupa molhada, quero ser a toalha e o cobertor…….”

Poesia pura! Conexão linda! Mary Enn ainda virou pra ele e falou, agora chega! Engole esse choro! Tá tudo bem. E ele engoliu! E ficou bem! Foi lindo! No final ainda teve uma passagem bônus na quimioterapia com uma música que eu amo e um jogo bem grande, com muitas pessoas envolvidas!

Foi um momento bem especial estar num hospital tão longe de casa. Tão diferente e tão igual aos hospitais que estou acostumada no Brasil. Que saudade senti dos meus parceiros! E quanto orgulho e honra trazer no meu jaleco o Plantão Sorriso! Como amo esse grupo e esse trabalho!

Enne foi incrível! Muito generosa! Elogiou minha experiência e tudo! Fiquei me achando! Na reunião da noite, contamos nossa experiência! Uma das participantes tinha nos acompanhado, Maria João. Segundo ela, o jogo foi ótimo! Dava pra ver que Enne e eu tínhamos experiência e jogamos muito bem juntas!

 Eu achei que já era tudo! Mas o Festival ainda me reservava outras coisinhas, claro! Volto pra contar em breve!

(Continua)

Portugal Parte 4 – Quando a energia interna faz a energia externa ir abaixo

Eu estava realmente cheia de energia! Pulsando! Vibrando! Até agora quando lembro desse momento sinto uma força deliciosa me atravessar!

Quem já viu o espetáculo sabe que uso uma panela elétrica em cena, na qual é feito o risoto. Eu levei a minha panela por medo de usar uma diferente e algo dar errado. Precisei de um transformador e extensão para fazê-la funcionar aqui, mas isso foi fácil de resolver. Testei umas três vezes durante a tarde e ótimo! Funcionava!

Maaaaaassss… ela puxa bastante energia, consome bastante! E, durante o espetáculo, liguei a panela e em quatro minutos (ou menos) a energia veio abaixo. Ops! É tudo que eu lembro de ter falado. De fato, minha vista escureceu, não lembro bem das coisas que falei nesse momento. Mas não deixei o jogo cair! Logo a plateia já acendeu as lanternas dos telemóveis, eu perguntei se estavam me vendo, se eu podia continuar e todos responderam que sim, me dando força para seguir e, acima de tudo, curiosos com o que viria a seguir.

Entendi que se eu ligasse a panela de novo, a energia voltaria a cair. Então, avisei logo que eu faria o espetáculo como ele é, mas não teríamos a comida. Mas depois, pensei, caramba, vocês vieram para comer, certo? Precisa ter a comida! Minha dramaturgia é assustadoramente dependente dessa receita que faço em cena!

Nessa fração de tempo de segundos, lembrei que a Eva do Festival tinha levado para mim um fogareiro elétrico e uma panela normal. Que eu decidi não usar com medo de ser muito diferente da minha panela…. ai ai ai, eu e esses medos!

Chamei um dos técnicos, o Diego que estava sentado na primeira fila e ria muito. Pedi pra ele pegar a panela substituta e ligar pra mim! Ele fez isso tão rápido que quando pisquei já estava tudo no lugar. A energia a essa altura também tinha voltado. Um milagre ter uma panela reserva! Normalmente eu não tenho uma panela reserva! Foi a primeira vez que precisou e a primeira vez que tinha (ufa)!

A plateia toda ainda estava ali, comigo, querendo me ver chegar ao final do espetáculo. E continuei. Não lembrava onde tinha parado, perguntei ao público, fiz piada com o fato de ninguém saber. Enfim, fiz piada de tudo, e segui! Normalmente, se é que se pode acreditar em alguma normalidade nesse contexto.

E foi incrível! A plateia ria muito! Improvisei bastante. Brinquei muitas vezes com o fato de ter ficado sem luz. Tive ajudantes em cena que foram um espetáculo a parte. A primeira, a Dani, minha souzchef! Recorri a ela em vários momentos e ela foi incrível. Depois eu soube, Dani é brasileira e também é palhaça!

E depois eu ainda precisaria de alguém para jogar tênis comigo. Esse alguém que também é o primeiro a experimentar o risoto no final. Chamei um rapaz que parecia não falar português. Perguntei, espanhol? Inglês? Francês? Negativa para todas, falei “vem que a gente se entende, na linguagem do amor!”.

O nome dele era Paulo, pelo menos foi isso que eu entendi! Ele foi ótimo! Jogou lindamente com todas as brincadeiras do tênis! Sentou para comer, comeu e quando eu perguntei se estava gostoso eu ouvi um “boníssmo!”. Sim, o Paulo na verdade era Paolo e era italiano! CHAMEI UM ITALIANO PARA COMER RISOTO! Falei isso enquanto caia no chão meio que desmaiando! A plateia veio abaixo, óbvio! Foi um dos momentos mais engraçados! E ele gostou de verdade!

Até esse momento eu não tinha certeza se o fogareiro estava funcionando, não sabia se ir dar certo a receita. E tirando que ficou um pouco salgado, foi o melhor risoto que eu já fiz! Inacreditável!

Encerrei muito feliz! Fui muito aplaudida (algumas pessoas até levantaram). Foi incrível! Já estava muito satisfeita com o meu trabalho! Muito agradecida por cada presente do universo! Sim, considero a queda de energia um presente do universo. E a forma que eu lidei com ela me mostra que eu sou, de fato, boa no que eu faço e estou preparada para enfrentar muitas coisas (é muito difícil escrever isso. Sou uma dessas pessoas com dificuldades de enxergar meu próprio valor. E no momento que escrevo isso logo vem um diabinho no meu ouvido “nossa, tá se achando”).

Para aumentar ainda a minha alegria, fui muito abraçada! Por palhaças conceituadas que gostaram do meu trabalho, por palhaças que estão começando e me disseram que sou uma inspiração, por pessoas da cidade jovens e crianças que gostaram do trabalho. E por muitas pessoas que queriam muito comer o risoto, mas não conseguiam porque eu levei poucos garfos.

Enfim, foi um momento muito especial! Uma linda estreia fora de casa! A primeira vez fora do Brasil! E, pra ser sincera, foi a primeira vez fora de Londrina! E o festival estava só começando para mim! Muitos outros momentos lindos estavam por vir…

Mas, fica pra próxima! Hehe!

(Continua)

Portugal Parte 3 – No Teatro

Finalmente o grande dia tinha chegado! Me preparei e esperei tanto por ele que quase não acreditava que seria real. Marina amanheceu melhor, mesmo assim entramos em contato com um médico. Fui tomar café da manhã enquanto ela e Lucio descansavam.

Depois do café e de socializar um pouco com as palhaças (bem pouco, sou tímida e estava nervosa) voltei para a hospedagem para buscar minhas coisas e ir ao teatro. E, mais uma vez, me odiei por ter tantos elementos para carregar. Mala gigante, bolsa, caixa… e tudo mais ladeira acima, porque né, o carro não chegava na minha hospedagem.

Olhando a foto agora, não sei como consegui carregar tudo sozinha. Estava muito pesado!

Consegui uma caroninha para facilitar um pouco o trajeto. Eva, (palhaça e produtora do festival) me deixou no teatro, me ajudou com algumas coisas e logo seguiu para resolver as outras demandas do festival. E eu fiquei ali, sozinha, num teatro que pertenceu a um convento, que com certeza é mais velho que o Brasil inteiro. Teatro do Convento (de Santa Clara)!

Eu, que morro de medo de ficar sozinha no Triolé, não tive nem tempo de ter medo dos fantasmas desse convento. Pensando agora, imagina o tanto de fantasma. Eu hein, que medo! Para além dos fantasmas, era um espaço bem bacana. Pequenininho, intimista, envolvente. Plateia em posição confortável.

Comecei logo a desempacotar minhas tralhas e pré-montar tudo. Os técnicos de luz viriam só depois do almoço, então aproveitei para ajeitar as outras coisas. Adiantei bem e quando vi já passava das 13h.

De volta a hospedagem encontrei Marina bem melhor. O médico tinha ido até lá, examinado e estava tudo bem (Obrigada Mondial Seguros, atendimento pontual bem quando precisamos!). Segundo ele, algo que ela comeu não caiu bem. Segundo eu, a ansiedade era tanta que tinha que estourar em algum lado. Sobrou pra ela! Tadinha.   

Voltamos os três para o teatro para montar a luz e lá ficar até a hora da apresentação. Foi tudo muito tranquilo. Os técnicos (Vera e Diego) eram bem bons e nos ajudaram muito! Marina brincou bastante durante essa preparação. Numa boa. E numa conspiração linda do universo, ela dormiu bem na hora que precisávamos passar um ensaio.

Brincando bem de boas!

Pensei, “é bom demais pra ser verdade”. E era mesmo! Ensaio feito, últimos retoques de luz. Marina descansando. Tudo estava tão pronto e certo que todos foram embora para resolver outras coisas em outros lugares. E mais uma vez fiquei sozinha nesse convento/teatro/ teatro do convento.

Respirando, agradecendo ao universo pela chance de estar ali e de estar tudo dando tão certo (apesar de todos os perrengues do dia anterior). Repassando cada piada na minha cabeça. E de repente, consegui um sinal de wifi do além. Até então não estava conseguindo me conectar ali. O sinal chegou em tempo para que eu recebesse algumas mensagens importantes e carinhosas do Brasil. Me fortalecendo para a estreia em além-mar que me aguardava. Benção de mãe que chegou na hora certa!

Uma das mensagens (de um amigo muito querido e pessoa muito especial nesse processo todo) me lembrou do tanto que eu quis que isso tudo acontecesse. Me lembrou que há pouco tempo isso tudo era só uma ideia e esse espetáculo era só um desejo. E hoje ele é real e me trouxe tão longe. O conselho dele, nessa altura do campeonato, fez muita diferença. Respira, divirta-se e que cada passo em cena seja firme! Essas palavras ficaram ecoando no meu coração.

Tudo ia bem! Deu tempo de me maquiar com tranquilidade, sendo fotografada por um jornal que eu não sabia, mas era uma publicação importante de Lisboa.

Antes de entrar em cena, pedi energia positiva. Entrei! Estava tudo lindo! Plateia generosa. Rindo logo na primeira chance. E continuando a rir comigo (e de mim) nos momentos iniciais do espetáculo. Eu me sentia bem. Estava respirando, me divertindo e tinha firmeza nos passos!

Tudo ainda estava claro…

Até que, de repente, a energia elétrica caiu. E minha vista escureceu. (Pô Santa Clara, logo você…)

E aí já é papo para outra postagem!

(continua)

Portugal Parte 2 – Estômago revirado

Voltei! Sei que parei num momento decisivo (mal aê), mas não tem como contar tudo de uma só vez. Continuando, chegamos finalmente à Portalegre, cidade na região do Alentejo que abrigou o Bolina – Festival Internacional de Palhaças. É uma região rural, digamos, e quase na Espanha! Tem muito castelos, ladeiras, ruas estreitérrimas (vocês lembram que falei que o carro que estamos é uma nave espacial, né? Então, não combinou nadinha com esse lugar apertadinho).

Eu me achando na minha barca, sem saber o que o destino reservava…..

Chegamos na hora do jantar das palhaças. Elas estavam todas começando a comer. Embora eu pareça ser essa pessoa super descolada e desinibida, eu sou praticamente uma ostra de tão tímida. Juro! Você pode não acreditar mas para mim é muito, muito, muito difícil chegar num lugar onde não conheço ninguém. Então, foi bem difícil chegar nesse lugar, cheio de desconhecidos e me apresentar.

Como era hora de comer, fomos logo fazendo um prato. E para coroar esse momento e fazer o que já estava difícil ainda mais difícil, a Marina virou para o lado e, como vou escrever isso? Chamou o juca, gorfou, enfim, vomitou mesmo! Passada a vontade de entrar naquele chão de pedra milenar sob os meus pés, eu tratei de levar ela para um pouco mais longe da comida e garantir que a minha roupa e a dela ficassem um pouco menos suja.

Queríamos ir logo descansar, mas dependíamos da produção do festival para nos levar para a nossa acomodação. Então, tivemos que esperar, naquele estado deplorável de quem não tomou banho nas últimas 24 horas e ainda levou um banho de vocês sabem o que (eca).

Mas nem tudo parece tão ruim que não possa piorar. Na hora de ir para a hospedagem, demos voltas e mais voltas no vilarejo labiríntico do centro histórico de Portalegre. O GPS se perdeu um pouco. A gente mais ainda. Eu entrei em pânico com o quão íngreme e estreitas eram as ruas, não conseguia mais ligar o carro, Marina pedindo pra abrir a porta pra ela vomitar e eu achei que ia ter um troço. Abandonei o carro! Desisti de dirigir. Lucio (meu herói) assumiu logo o volante (não contem para ninguém) e logo desistimos de chegar de carro na hospedagem. Paramos onde deu e seguimos a pé.

Só um exemplo de rua estreita e íngreme.

A nossa host queria explicar cada detalhe da casa, com carinho, numa recepção muito calorosa! E eu só queria que ela sumisse pra dar banho na Marina e em mim! Deixei ela falando com o Lucio e fui logo à casa de banho! Marina parecia melhor. Achamos que tudo ia ficar bem.

Mas ela passou mal por toda a noite. Perdi as contas de quantas vezes ela vomitou. Usei todas as toalhas da hospedagem (e algumas camisetas do Lucio) para tentar conter tudo. Passamos a noite em claro revezando entre acolher Marina e lavar toalhas no chuveiro.

Chorei de pânico, de vontade de voltar pra casa, de medo do que poderia acontecer. Pensei muitas vezes que teria que cancelar a apresentação que já seria no dia seguinte. “Vim de tão longe pra cancelar tudo”, pensava. Sentia uma tristeza profunda de preocupação com meu trabalho.

Por outro lado, o chicotinho que nasce com toda mãe começou logo a me flagelar. “por que fui trazer a Marina? Ela está sofrendo por minha culpa. Que que eu fui fazer? Por que inventei de trazer ela pra esse fim de mundo? Onde eu estava com a cabeça?” e por aí vai… me senti uma louca de estar ali com ela. Pensei em nunca mais inclui-la nas minhas loucuras. Fiz promessas para que ela melhorasse, enfim… que noite…

Entramos em contato com o seguro (ainda bem que tinha) para saber o que fazer caso ela piorasse. E depois dessa noite em claro (a segunda), acordamos para o que era o dia da apresentação e toda a minha tensão e ansiedade ainda se concentrava em saber como seria e se daria certo. Mas, isso já é história para a próxima parte!

(continua)